.
E eu pensando na solidão dos escritores. E por que não, na dos cientistas, músicos e pintores. Talvez mesmo um arquiteto, debruçado em sua prancheta, alinhando retas, ordenando paralelas, seja um cara sozinho naquele momento. Enfim, o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco.
- Ela não existe, você sabe. E, se existir, você já pode ter cruzado com ela e nem ter notado. - ele diz, com exaltação.
- Mas continuo tentando. Nem que tenha de encontrá-la pesquisando a árvore genealógica das manhãs.
.
(...)
.
- Politicamente, o exemplo brasileiro é muito típico das condições do pós-moderno. Porque no Brasil há um sentimento de decepção, mas não há uma grande decepção, uma decepção dramática - disse o professor Hans Gumbrecht.
O relógio do aeroporto marcava dezessete graus. Era setembro, no começo, mas a tarde ainda tinha uns ventos típicos de agosto. No táxi para o centro, o motorista fez comentários sobre política, futebol e mulheres.
Em casa, eu me lembrei da entrevista com o professor Hans: realmente não havia uma grande decepção, mas ainda assim eu achei que tinha motivos de sobra para, no mínimo, dar tiros em muita gente. Ou pôr fogo no apartamento. Ao invés disso, fumei um cigarro, dei corda no despertador e fui dormir com o que me restava de esperança.


