segunda-feira, 2 de maio de 2011

Últimas leituras (desobrigadas): Marçal Aquino
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E eu pensando na solidão dos escritores. E por que não, na dos cientistas, músicos e pintores. Talvez mesmo um arquiteto, debruçado em sua prancheta, alinhando retas, ordenando paralelas, seja um cara sozinho naquele momento. Enfim, o homem é uma criatura solitária. Muito embora viva procurando se amparar nas mais diversas coisas. Até mesmo numa página em branco.


Onze jantares, 1986
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- Ela não existe, você sabe. E, se existir, você já pode ter cruzado com ela e nem ter notado. - ele diz, com exaltação.
- Mas continuo tentando. Nem que tenha de encontrá-la pesquisando a árvore genealógica das manhãs.
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(...)
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- Politicamente, o exemplo brasileiro é muito típico das condições do pós-moderno. Porque no Brasil há um sentimento de decepção, mas não há uma grande decepção, uma decepção dramática - disse o professor Hans Gumbrecht.
O relógio do aeroporto marcava dezessete graus. Era setembro, no começo, mas a tarde ainda tinha uns ventos típicos de agosto. No táxi para o centro, o motorista fez comentários sobre política, futebol e mulheres.
Em casa, eu me lembrei da entrevista com o professor Hans: realmente não havia uma grande decepção, mas ainda assim eu achei que tinha motivos de sobra para, no mínimo, dar tiros em muita gente. Ou pôr fogo no apartamento. Ao invés disso, fumei um cigarro, dei corda no despertador e fui dormir com o que me restava de esperança.


A família no espelho da sala, 1988



Posso começar este texto como muitos outros que já escrevi, dizendo que os contos de Marçal Aquino são uma leitura ótima, inspiradora, dizer que o cara é genial, tem seu lugar na literatura contemporânea, sabe como é, todo aquele bla bla blá esperado para uma resenha crítica (enfim, como se eu fosse uma especialista, ou pior, gostasse de posar como especialista). Mas como a proposta agora é outra, devo começar de modo diferente (apesar de ainda um tanto clichê). Portanto, meu primeiro comentário é, na verdade, uma doce constatação: as leituras desobrigadas carregam um prazer em si. Os textos poderiam ser medonhos, só o deleite de reservar 40 minutos do meu dia para tomar um café despretensioso e ler algo sobre o qual eu não tenha nenhum encargo já valeriam o tempo atribuído à tarefa. Para completar, os textos não são medonhos, pelo contrário, são bastante catárticos, em especial quando retomam a pós-modernidade, tema que tanto me provoca. Aliás, o título da seleção de contos provoca de cara: Famílias terrivelmente felizes. Uma exposição de pequenos quadros familiares, retratos precisos de traição, de desejo, de velhice, de expectativa adolescente, de solidão, de exemplo paterno, de relações fraternais ásperas. Um pouco de tudo que é inevitável a uma família. Ao ler estes contos tenho a impressão que, de fato, todas as famílias são felizes porque não renunciam ao inevitável. Mas não qualquer tipo de felicidade. A relação familiar, mais do que qualquer outra, nos obriga a aceitação, talvez por isso ela nos torne terrivelmente felizes.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Experiências

Esta semana cheguei a duas constatações muito esclarecedoras sobre o meu modo de ver a vida e, principalmente, de agir sobre ela. Uma das contatações eu escrevi no meu diário (o de papel mesmo, que vive dentro da minha bolsa e só eu leio), mas a outra eu vou escrever aqui, especialmente porque esse espaço vai me ajudar a realizar um exercício.

É o seguinte: cheguei à conclusão de que só me aproprio das coisas quando escrevo sobre elas. Engraçado foi como eu descobri isso. Essa semana me vi imprimindo tabelas organizadoras dos compromissos/atividades que tenho até o final de maio! Fiquei meio aflita por perceber que o tempo está passando rápido, mas também tranquila por enxergar esquematicamente tudo o que eu realmente preciso fazer e todo o tempo que vai me sobrar apesar das obrigações.

A descoberta se deu a partir de uma situação cotidiana, mas depois disso comecei a reparar que essa dinâmica acontece em outras situações também (em geral, preciso anotar algo sobre os textos que leio, caso contrário, parece que as ideias novas ficam apenas flutuando num espaço longínquo da minha cabeça). Decidi então, escrever mais (fácil assim, como se fosse fácil) e o blog vai ser o carregador/fixador desse peso de pensamentos e conhecimentos cotidianos.

Sei que o blog é público, mas é também um diário pessoal, portanto, escreverei para mim. Os textos não vão ter uma revisão/edição exaustiva, não os salvarei no rascunho para ler no dia seguinte e "melhorá-los". Eles constarão aqui como vieram ao mundo, não tenho pretensões literárias. Isso tudo não impede que um leitor irônico, curioso ou apenas interessado deixe um comentário quando quiser.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

À bengala

Contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011



Após assistir A Suprema Felicidade (Arnaldo Jabor, 2010), um amigo comentou que sentia falta de assistir um filme que o fizesse ficar incapaz, por pelo menos meia hora, de dizer algo. Concordei com ele, e até o consolei dizendo que só filmes muito espetaculares provocam esse tipo de reflexão. Ontem, em noite insone, pude recobrar essa sensação ao assistir Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2007). Estou há quase 8 horas sem poder dizer nada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

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Domingo a tarde é muito triste, mesmo quando a gente já tá de férias. Uma vez li uma tirinha do Laerte em que Deus falava justamente disso, o quanto o domingo é tedioso, demora pra passar... Se um dia Deus me pedir uma dica pra lidar com essa situação, direi sem pestanejar: assista a musicais da década de 50.

sábado, 11 de dezembro de 2010

"Estamos todos presos do lado de fora de um abraço."
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"Toda história de amor é uma cerimônia de adeus."
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"Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte de nossos corações fica desfeita. Assim, nos esforçamos mais para evitar o sofrimento do que na busca do prazer."
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"Eu sempre achei que o amor, que o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas, tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal. Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim, porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. Um grande amor não é possível, e talvez por isso é que seja grande, para que nele caiba o impossível."
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"A grande questão a ser respondida pelo homem não é 'Quem sou?', mas 'O que desejo?'. Nós somos definidos pelos nossos desejos, pelas escolhas que fazemos influenciados por eles, mas porque os seres humanos costumam fazer coisas que não querem ou que não sabem que querem? Porque costumamos ser tão cegos aos nossos próprios desejos? Estas são as perguntas que nem Freud nem qualquer outro estudioso da mente humana jamais conseguirá responder com perfeição, porque além do nosso grande desconhecimento sobre nós mesmos, somos confrontados com o acaso ou um acidente o tempo todo. Ainda assim, perdidos em meio ao caos de uma teia de coincidências, os seres humanos conseguem ter momentos plenos de felicidade e sentido, é neles que conquistamos a impermanência."
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(fragmentos de Afinal, o que querem as mulheres? - minissérie Global)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010


26


No último dia oito ultrapassei meu primeiro quarto de século. Em plena segunda-feira. Não passei por grandes crises, só as habituais. Também não fiz grandes planos, quero apenas ser mestre antes dos trinta.


O primeiro presente do dia foi avistar uma família de capivaras almoçando sossegadamente a grama das margens do rio Pinheiros. Há tempos não via essa família. Até buzinei. Elas não deram bola.


Fui pra casa apressada, mas o encontro para o almoço desacreditou meu ânimo. Talvez esperasse um grande evento, um pouco de bajulação e recordações sobre o meu valor como filha, irmã, mulher, mas para minha irônica surpresa tudo estava como todo dia. Ao longo da tarde recebi os telefonemas familiares de sempre, alguns recados impessoais no orkut e para finalmente celebrar a data fui ao cinema comigo assistir '5x favela - Agora por nós mesmos'.


Este ano não quis fazer festa, comemorar tornou-se um verbo mais intimista em meu vocabulário. Convidei seletivamente os amigos com os quais gostaria de passar o entardecer desse dia para tomar suco de laranja numa padaria em Pinheiros. Muitos foram e os que não puderam ligaram lamentando a ausência. Me fartei da presença dos que ali estiveram e ganhei muitos presentes. Ouso dizer que o mais especial foi uma graphic novel sobre os últimos dias do Che, criada por um trio argentino no final da década de 60. Livro inesperado, pertinente e com dedicatória.


Dois dias depois, recebi de fato o último presente, o que sela a comemoração com um embalo para os próximos doze meses: meus alunos trouxeram bolo e cantaram um "Parabéns a você!" cheio de riso e tiração de sarro. Este ano não tenho do que reclamar.

É hoje...