terça-feira, 24 de abril de 2007

Texto 10 - Som e Barulho

Sai correndo enquanto emite um som gutural. Joaquina chora em desespero. Não há felicidade completa, ela sabe. Mas sente que sofre o tempo todo. Variações de humor, testes sociais, falta de reconhecimento e de auto-estima, o mais perigoso medo. Conversa com amigos e de cinco em cinco minutos sente o que parece uma felicidade tranquila, um bem estar sereno de quem sabe que é feliz, inteira. Pouco tempo depois tem a impressão de que é a menos interessante das pessoas: não é inteligente o bastante, não é boa na hora de se expressar, sequer é bonita o suficiente... e o teste social reprovado para lhe arraigar as inseguranças. Pensa que o peito vai explodir e que os olhos não vão mais suportar tanta lágrima ressentida, resignada. Fica a garimpar minhocas e se esquece das evidências, dos sinais cotidianos que mostram o inverso. Anda em silêncio pelos corredores da universidade, mas constrói no imáginário a cena de si mesma correndo com um taco de beisebol a golpear e destruir todos que a enxergam, como numa demonstração de expulsão dos demônios que atazanam sua vida. Puro barulho mental.

terça-feira, 17 de abril de 2007

O seu santo nome
(Carlos Drummond de Andrade)

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Texto 9 - Joaquina enevoada

Joaquina se perguntava: "O que será que esse cara fez? Não paro de pensar nele!" Toda a descrença em relação ao amor havia se diluído no espaço, só o que se enxergava era a possibilidade latente de que dessa vez daria certo. Joaquina voltou a sentir o frio na barriga, as lentidões no pensamento, a retidão no olhar e a saudade. Saudade das mais fortes, daquelas de estar feliz porque está junto, mas ao mesmo tempo já estar triste ao saber que em breve vai estar separado. O escolhido: ou seria escolhente?... verbo estranho para a situação, eu assumo. No amor não há escolha, o que há é tão somente um espiral fluido que contorna os casais alheios enevoados de desejo e expectativa. Joaquina havia sido engolida por um desses espirais, e para sua alegria o rapaz já estava lá dentro a esperá-la. Joaquina desaprendeu a demonstrar a palpitação do corpo por medo da rejeição, usou isso devido a ilusões passadas e como freio para as ilusões futuras. "Ele me joga de frente comigo mesma, e eu fico: e agora, o que eu faço?", gostaria de dizer a ela o que fazer, mas nem eu sei quem vai responder essa pergunta. Penso apenas que ela deveria enevoar-se mais intensamente do que antes e do que qualquer outra vez. Sensações como estas são raríssimas.